O sentimento é realmente de profundo luto. O Instituto Butantan, o Brasil e a ciência choram. Segundo informações recentes, foram mais de 1 milhão de pessoas que contribuíram, durante os últimos cem anos, para a fundamentação desse inestimável acervo científico.
Desde a sua criação, nos tempos de Vital Brazil [médico que criou o Butantan na virada do século 19 para o 20], a Coleção Científica de Serpentes, Aranhas e Escorpiões (Herpetológica e Aracnológica) do Butantan foi construída principalmente com a ajuda da população rural, aterrorizada pelos animais venenosos.
Acervo em crescimento
No início, os colaboradores eram do Estado de São Paulo e, em seguida, de todo o Brasil. À medida que foi tomando corpo, graças ao esforço de várias gerações de pesquisadores e de alunos, a importância científica desse acervo foi aumentando e, atualmente, era a maior coleção de serpentes do mundo.
Em relação aos aracnídeos, o acervo vinha crescendo vertiginosamente, rivalizando com os grandes centros mundiais de pesquisa científica.
Milhares de teses e trabalhos científicos, publicados nas mais importantes revistas científicas internacionais, muitos deles descrevendo espécies novas, foram realizados graças aos animais que estavam tombados nessa coleção.
Assim, pode-se afirmar, com toda a segurança, que muito da importância científica mundial do Instituto Butantan se deve a ela. Por outro lado, grande parte da história da colonização do Estado de São Paulo estava ali, mesclada com a história do envenenamento por mordidas de serpentes, que assolava, juntamente com as doenças infecciosas, o colono, na maior parte de origem imigrante.
A distribuição original da biodiversidade de serpentes e aracnídeos, assim como as mudanças nessa distribuição em função do gradativo desmatamento, estava também registrada ali, por meio dos animais tombados, alguns deles totalmente extintos.
Além de todas as considerações de cunho estritamente científico que é possível tecer a favor dessa coleção, eu ainda faria outra, de caráter estritamente sentimental.
Vocação sacerdotal
A sua importância reside fundamentalmente no trabalho apaixonado e de vocação quase sacerdotal dos seus curadores e usuários.
Todos nós hoje choramos por algo difícil de classificar, essa sensação de perda de um bem que vai muito além do material. Ao menos um sentimento positivo se pode indicar.
A tremenda importância da coleção era muito viva, ainda que escondida nas suas centenárias prateleiras de animais mortos. Resistiu mais de um século, mesmo se chocando com a frieza e a estupidez do reducionismo. Infelizmente a valorização desse tesouro só se deu à luz das chamas, que o transformaram em cinzas.
CARLOS JARED é biólogo, pesquisador do Instituto Butantan e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Entre os grupos de animais que estuda estão anfíbios, mamíferos marsupiais e lagartos.
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