Segundo pesquisadores que preferiram não se identificar, eram constantes as reclamações com relação à estrutura física e especialmente elétrica do galpão que pegou fogo.
Um dos cientistas apontava a ferrugem tomando conta do telhado do prédio. "Isso quer dizer alguma coisa", disse. Segundo ele, "gambiarras" são comuns no instituto. "Muitos prédios provisórios acabam se tornando permanentes."
A Folha entrou brevemente no prédio que pegou fogo, interditado pela Defesa Civil.
Ali é possível ver algumas tomadas que foram "puxadas" de outras. Os fios que saíam do poste do lado de fora passavam antes por um tubo exposto, rente à parede, por metros antes de entrar no local, ficando claro que aquela instalação não fora feita com o galpão.
Segundo a direção do Instituto Butantan, o prédio tinha sido reformado recentemente e não havia nada de errado com a parte elétrica.
Bomba-relógio
Além dos problemas específicos das instalações do Butantan, coleções biológicas armazenadas de modo tradicional têm um quê de bomba-relógio.
Isso porque ela combinam com frequência animais em álcool e outros bichos, como insetos ou aranhas, cuja carapaça externa seca foi preservado. A mistura é muito inflamável.
Para Paulo Vanzolini, da USP, decano dos especialistas em répteis do Brasil, "as precauções são conhecidas: examinar frequentemente a parte elétrica e ter os extintores em boas condições."
"Os primeiros minutos nesse tipo de fogo são capitais, é sempre muito difícil de controlar", afirma Hussam Zaher, diretor do Museu de Zoologia da USP.
A maneira mais segura de lidar com o problema é transferir as coleções biológicas para prédios só para elas, sem janelas, equipados com um sistema que emite gás carbônico quando acontece um incêndio.
Sem oxigênio no ar, o fogo deixa de ser alimentado e é debelado. Agora, o Butantan quer fazer um prédio com vários "módulos", em que um foco de incêndio não conseguiria se espalhar por todo o acervo.
Segundo Francisco Franco, curador da coleção destruída, foi possível ontem tirar cerca de 40% do acervo queimado de dentro do prédio. Ele diz que existe material em todos os estados de conservação, mas que ficou positivamente surpreso ao ver muitos animais inteiros.
O escoramento do prédio, que ameaça desabar, deveria ter sido feito ontem, mas foi adiado para hoje. Depois disso, será possível retirar o resto da coleção. O trabalho deve levar mais dois dias, estima Franco. Só depois será possível saber o tamanho do estrago.
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